Dia 10 de 33 – Despojando-se de si mesmo: o caminho para a verdadeira liberdade em Cristo

Antes de qualquer coisa neste dia, ao abrir os olhos, entregue sua alma inteiramente a Deus. Não se apresse para olhar o celular ou iniciar as tarefas do dia. Inspire-se! Respire fundo e diga ao Senhor com confiança: “Sou todo vosso, e tudo o que tenho vos pertence!”

Nestes 12 dias preliminares, estamos lutando contra o espírito do mundo — esse modo de pensar e viver que nos afasta de Deus. Hoje, o Tratado nos convida a um passo decisivo: despojar-nos de tudo o que há de mau em nós mesmos.

Quantas vezes levantamos cedo para trabalhar ou estudar, mas não conseguimos acordar 30 minutos antes para irmos à Santa Missa? Quantas vezes viramos noites em claro para um diploma, mas nos faltam forças para abrir a Sagrada Escritura por 10 minutos? Esses pequenos sinais revelam a desordem interior que o espírito do mundo nos impõe. Ele nos torna escravos, movidos por vaidade, orgulho e amor-próprio.

Mas o verdadeiro caminho da liberdade é o contrário: esvaziar-se de si mesmo para que Cristo possa habitar em nós. O que está sujo, precisa ser limpo; o que está cheio de si, precisa ser esvaziado para acolher Deus.

Por isso, antes da leitura de hoje, supliquemos a luz do Espírito Santo e o auxílio da Santíssima Virgem. Peçamos a graça de enxergar com humildade as raízes do pecado em nós e o desejo sincero de abandoná-las.

Agora, com reverência e fé, iniciemos nossas orações:
📿 Ave Maris Stella  e oVinde, Espírito Criador 

🙏 Antes de iniciar a leitura espiritual, pare por um instante e faça as orações com atenção e amor, pedindo com sinceridade à luz do Espírito Santo e ao auxílio da Santíssima Virgem.

📌 Sem oração, não há fruto. Sem humildade, não há transformação.

Ave Estrela do Mar (Ave Maris Stella)

Ave, do mar Estrela,
bendita Mãe de Deus,
fecunda e sempre Virgem,
portal feliz dos céus.

Ouvindo aquele Ave
do anjo Gabriel,
mudando de Eva o nome,
trazei-nos paz do céu.

Ao cego iluminai,
ao réu livrai também;
de todo mal guardai-nos
e dai-nos todo o bem.

Mostrai ser nossa Mãe,
levando a nossa voz
a Quem, por nós nascido,
dignou-se vir de vós.

Suave mais que todas,
ó Virgem sem igual,
fazei-nos mansos, puros,
guardai-nos contra o mal.

Oh! dai-nos vida pura,
guiai-nos para a luz,
e um dia, ao vosso lado,
possamos ver Jesus.

Louvor a Deus, o Pai,
e ao Filho, Sumo Bem,
com seu Divino Espírito
agora e sempre. Amém.


Vinde, Espírito Criador (Veni Creator Spiritus)


Ó, vinde, Espírito Criador,
as nossas almas visitai
e enchei os nossos corações
com vossos dons celestiais.

 Vós sois chamado o Intercessor
do Deus excelso o dom sem par,
a fonte viva, o fogo, o amor,
a unção divina e salutar.

Sois doador dos sete dons
e sois poder na mão do Pai,
por Ele prometido a nós,
por nós seus feitos proclamai.

A nossa mente iluminai,
os corações enchei de amor,
nossa fraqueza encorajai,
qual força eterna e protetor.

Nosso inimigo repeli,
e concedei-nos vossa paz;
se pela graça nos guiais,
o mal deixamos para trás.

Ao Pai e ao Filho Salvador
por vós possamos conhecer
que procedeis do seu amor
fazei-nos sempre firmes crer.
Amém

Dia 10 – Leitura do Tratado: Parágrafos 78 a 82

ARTIGO III Devemos despojar-nos do que há de mau em nós

78. Terceira verdade. – Nossas melhores ações são ordinariamente manchadas e corrompidas pelo fundo de maldade que há em nós. Quando se despeja água limpa e clara em uma vasilha suja, que cheira mal, ou quando se põe vinho em uma pipa cujo interior está azedado por outro vinho que ali antes se depositara, a água límpida e o vinho bom adquirem facilmente o mau cheiro e o azedume dos recipientes. Do mesmo modo, quando Deus põe no vaso de nossa alma, corrompido pelo pecado original e pelo pecado atual, suas graças e orvalhos celestiais ou o vinho delicioso de seu amor, estes dons divinos ficam ordinariamente estragados ou manchados pelo mau germe e mau fundo que o pecado deixou em nós; nossas ações, até as mais sublimes virtudes, disto se ressentem. É, portanto, de grande importância, para adquirir a perfeição, que só se consegue pela união com Jesus Cristo, despojar-nos de tudo que de mau existe em nós. Do contrário, Nosso Senhor, que é infinitamente puro e odeia infinitamente a menor mancha na alma, nos repelirá e de modo algum se unirá a nós.

79. Para despojar-nos de nós mesmos, é preciso conhecer primeiramente e bem, pela luz do Espírito Santo, nosso fundo de maldade, nossa incapacidade para todo bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância em todo tempo, nossa indignidade de toda graça e nossa iniqüidade em todo lugar. O pecado de nossos primeiros pais nos estragou completamente, nos azedou, incha e corrompeu, como o fermento azeda, incha e corrompe a massa em que é posto. Os pecados atuais que cometemos, sejam mortais ou veniais, perdoados que estejam, aumentam em nós a concupiscência, a fraqueza, a inconstância e a corrupção, deixando maus traços em nossa alma.

Nosso corpo é tão corrompido, que o Espírito Santo (Rm 6,6; Sl 50,7) o chama corpo do pecado, concebido no pecado, nutrido no pecado, e só apto para o pecado, corpo sujeito a mil e mil males, que se corrompe sempre mais cada dia, e que só engendra a doença, os vermes, a corrupção.

Nossa alma, unida ao corpo, tornou-se tão carnal, que é chamada carne: “Toda a carne tinha corrompido o seu caminho” (Gn 6,12). Toda a nossa herança é orgulho e cegueira no espírito, endurecimento no coração, fraqueza e inconstância na alma, concupiscência, paixões revoltadas e doenças no corpo. Somos, naturalmente, mais orgulhosos que os pavões, mais apegados à terra que os sapos, mais feios que os bodes, mais invejosos que as serpentes, mais glutões que os porcos, mais coléricos que os tigres e mais preguiçosos que as tartarugas; mais fracos que os caniços, e mais inconstantes do que um catavento. Tudo que temos em nosso íntimo é nada e pecado, e só merecemos a ira de Deus e o inferno eterno.

80. Depois disto, por que nos admirar de ter Nosso Senhor dito que quem quisesse segui-lo devia renunciar a si mesmo e odiar a própria alma; que aquele que amasse sua alma a perderia e quem a odiasse se salvaria? (Jo 12,25). A sabedoria infinita, que não dá ordens sem motivo, só ordena que nos odiemos porque somos grandemente dignos de ódio: só Deus é digno de amor, enquanto nada há mais digno de ódio do que nós.

81. Em segundo lugar, para despojar-nos de nós mesmos, é preciso que todos os dias morramos para nós, isto é, importa renunciarmos às operações das faculdades da alma e dos sentidos do corpo, precisarmos ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-nos das coisas deste mundo como se não o fizéssemos (cf. 1Cor 7,29-31), o que São Paulo chama morrer todos os dias: “Quotidie morior” (1Cor 15,31). “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só, e não produz fruto apreciável”: “Nisi granum frumenti cadens in terram mortuum fuerit, ipsum solum Manet” (Jo 12,24-25). Se não morrermos a nós mesmos, e se as mais santas devoções não nos levarem a esta morte necessária e fecunda, não produziremos fruto que valha, nossas devoções serão inúteis, todas as nossas obras de justiça ficarão manchadas por nosso amor-próprio e nossa própria vontade, e Deus abominará os maiores sacrifícios e as melhores ações que possamos fazer. Na hora da nossa morte, teremos as mãos vazias de virtudes e de méritos, e não brilhará em nós a menor centelha do puro amor, que só é comunicado às almas mortas a si mesmas, almas cuja vida está oculta em Jesus Cristo com Deus (Cl 3,3).

82. Em terceiro lugar, é preciso escolher, entre todas as devoções à Santíssima Virgem, a que nos leve com mais certeza e até aniquilamento do próprio eu. Esta será a devoção melhor e mais santificante, pois é mister reconhecer que entre um milhão de pessoas que começam a viver espiritualmente, apenas uma chega à perfeição, e esta pessoa só a alcança por meio de uma devoção mais santificante, mais eficaz, menos ilusória e mais segura, e que serve de canal para conduzi-la até Deus.

🙏 Conclusão do Dia 10

Chegamos ao final de mais um dia desta preparação, e hoje o Tratado nos fez olhar para dentro de nós mesmos. É impossível unir-se verdadeiramente a Jesus sem antes renunciar ao próprio ego, ao orgulho, à vaidade, ao apego às próprias vontades. Esse esvaziamento interior é o solo fértil onde a graça pode frutificar.

🌱 Rezar o Rosário todos os dias exige tempo — e é justamente aí que começa o nosso sacrifício de amor. Porque oferecer tempo a Deus significa abrir mão de nossos planos, adiar compromissos, reorganizar prioridades, sacrificar até mesmo nossas vontades mais legítimas. Às vezes, até nossas necessidades parecem entrar em conflito com essa entrega, mas o céu exige tempo, silêncio e espaço no nosso coração.

⏳ Santa Teresa d’Ávila dizia que uma alma que não reza é como um corpo paralítico, que embora tenha pés e mãos, não pode se mover. E, mesmo sendo uma mulher ocupada com mil responsabilidades no Carmelo e nas reformas da Ordem, ela nunca deixava de separar o seu tempo para estar com Deus. Ela tinha um horário fixo para Ele. Era o compromisso mais importante do dia — o mais sagrado.

🕯️ E você? Já tem um horário reservado para Deus? Está disposto a ofertar 20, 30, 60 minutos do seu dia para rezar com Maria e por meio dela alcançar Jesus?

📿 O Rosário é uma oração de oferta de tempo, é um altar no meio da correria. É uma luta contra o espírito do mundo que nos quer apressados, improdutivos espiritualmente e vazios. É uma arma silenciosa que, aos poucos, destrói nossas paixões e abre espaço para a presença de Deus.

👉 Não há consagração verdadeira sem entrega de tempo. Não se ama verdadeiramente sem renúncia. E o tempo é o presente mais precioso que podemos devolver a Deus.

Amanhã, continuaremos esse caminho de luz e esvaziamento interior. Por hoje, silenciemos e peçamos a graça de oferecer nosso tempo — mesmo quando nos faltar disposição — como prova concreta do nosso amor.

Bartolomeo Cavarozzi, Anjo da Guarda, século XVII, óleo sobre tela. 
Arte barroca italiana, estilo caravaggista.

 



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