Dia 24 de 33 – O caminho fácil, curto, perfeito e seguro da Santíssima Virgem

A união com Jesus: o caminho fácil, curto, perfeito e seguro da Santíssima Virgem
Ao despertarmos para mais um dia da nossa preparação espiritual, entreguemos os primeiros pensamentos ao Senhor, pedindo a luz do Espírito Santo e a proteção da Virgem Maria.

Hoje iniciamos um trecho profundo e consolador do Tratado, em que São Luís nos mostra que a consagração a Maria é o caminho mais doce e seguro para a união com Jesus Cristo. E é nesta união que está escondido o segredo do verdadeiro amor: um amor esponsal, exclusivo e total, como o da alma fiel por seu Esposo divino.

Essa consagração não é um simples gesto devocional. Ela é uma resposta a um chamado profundo que nos convida a pertencer a Jesus por inteiro, pelas mãos da Mãe. Assim como Maria foi a Esposa fiel do Espírito Santo, também nós somos chamados a nos deixar conduzir, formar e preparar por Ela, para que possamos viver uma intimidade com Cristo semelhante à dos santos.

São João Paulo II dizia que a consagração mariana “nos conduz à forma mais plena do amor esponsal com Cristo”. Esse amor não é feito apenas de sentimentos, mas de decisões concretas: abandonar o egoísmo, carregar a cruz com alegria, e viver a santidade no cotidiano. É um caminho exigente, mas que Maria torna fácil, curto, perfeito e seguro, como vimos nos parágrafos de hoje.

Nossa Senhora nos conduz pela mão como boa Mãe, e também como Educadora de almas. Ela nos mostra que, ao nos darmos inteiramente a Jesus por meio dEla, somos configurados a Ele na obediência, na humildade e no amor – até que, por graça, nos tornemos semelhantes ao Esposo e possamos viver nEle com alegria, profundidade e verdade.

👉 Que hoje seja um dia de confiança e entrega! Que possamos renovar o desejo de nos unirmos a Cristo com um coração puro e decidido, e pedir à Santíssima Virgem que nos forme como verdadeiros esposos espirituais do Senhor.

Agora, com reverência e fé, iniciemos nossas orações:
📿 Ave Maris StellaVinde, Espírito Criador e a Ladainha da Santíssima Virgem

🙏 Antes de iniciar a leitura espiritual, pare por um instante e faça as orações com atenção e amor, pedindo com sinceridade à luz do Espírito Santo e ao auxílio da Santíssima Virgem.

📌 Sem oração, não há fruto. Sem humildade, não há transformação.

Ave Estrela do Mar (Ave Maris Stella)

Ave, do mar Estrela,
bendita Mãe de Deus,
fecunda e sempre Virgem,
portal feliz dos céus.

Ouvindo aquele Ave
do anjo Gabriel,
mudando de Eva o nome,
trazei-nos paz do céu.

Ao cego iluminai,
ao réu livrai também;
de todo mal guardai-nos
e dai-nos todo o bem.

Mostrai ser nossa Mãe,
levando a nossa voz
a Quem, por nós nascido,
dignou-se vir de vós.

Suave mais que todas,
ó Virgem sem igual,
fazei-nos mansos, puros,
guardai-nos contra o mal.

Oh! dai-nos vida pura,
guiai-nos para a luz,
e um dia, ao vosso lado,
possamos ver Jesus.

Louvor a Deus, o Pai,
e ao Filho, Sumo Bem,
com seu Divino Espírito
agora e sempre. Amém.


Vinde, Espírito Criador (Veni Creator Spiritus)


Ó, vinde, Espírito Criador,
as nossas almas visitai
e enchei os nossos corações
com vossos dons celestiais.

 Vós sois chamado o Intercessor
do Deus excelso o dom sem par,
a fonte viva, o fogo, o amor,
a unção divina e salutar.

Sois doador dos sete dons
e sois poder na mão do Pai,
por Ele prometido a nós,
por nós seus feitos proclamai.

A nossa mente iluminai,
os corações enchei de amor,
nossa fraqueza encorajai,
qual força eterna e protetor.

Nosso inimigo repeli,
e concedei-nos vossa paz;
se pela graça nos guiais,
o mal deixamos para trás.

Ao Pai e ao Filho Salvador
por vós possamos conhecer
que procedeis do seu amor
fazei-nos sempre firmes crer.
Amém   

Ladainha da Santíssima Virgem

Senhor, tende piedade de nós
Cristo, tende piedade de nós
Senhor, tende piedade de nós

Cristo, ouvi-nos
Cristo, atendei-nos

Deus Pai do céu, tende piedade de nós
Deus Filho Redentor do mundo, tende piedade de nós
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós

Santa Maria, rogai por nós.
Santa Mãe de Deus, rogai por nós.
Santa Virgem das virgens, rogai por nós.
Mãe de Cristo, rogai por nós.
Mãe da Igreja, rogai por nós.
Mãe de misericórdia, rogai por nós.
Mãe da divina graça, rogai por nós.
Mãe da esperança, rogai por nós.
Mãe puríssima, rogai por nós.
Mãe castíssima, rogai por nós.
Mãe sempre virgem, rogai por nós.
Mãe imaculada, rogai por nós.
Mãe digna de amor, rogai por nós.
Mãe admirável, rogai por nós.
Mãe do bom conselho, rogai por nós.
Mãe do Criador, rogai por nós.
Mãe do Salvador, rogai por nós.
Virgem prudentíssima, rogai por nós.
Virgem venerável, rogai por nós.
Virgem louvável, rogai por nós.
Virgem poderosa, rogai por nós.
Virgem clemente, rogai por nós.
Virgem fiel, rogai por nós.
Espelho de perfeição, rogai por nós.
Sede da Sabedoria, rogai por nós.
Fonte de nossa alegria, rogai por nós.
Vaso espiritual, rogai por nós.
Vaso honorífico, rogai por nós.
Vaso insigne de devoção, rogai por nós.
Tabernáculo da eterna glória, rogai por nós.
Moradia consagrada a Deus, rogai por nós.
Rosa mística, rogai por nós.
Torre de Davi, rogai por nós.
Torre de marfim, rogai por nós.
Casa de ouro, rogai por nós.
Arca da aliança, rogai por nós.
Porta do céu, rogai por nós.
Estrela da manhã, rogai por nós.
Saúde dos enfermos, rogai por nós.
Refúgio dos pecadores, rogai por nós.
Conforto dos migrantes, rogai por nós.
Consoladora dos aflitos, rogai por nós.
Auxílio dos cristãos, rogai por nós.
Rainha dos Anjos, rogai por nós.
Rainha dos Patriarcas, rogai por nós.
Rainha dos Profetas, rogai por nós.
Rainha dos Apóstolos, rogai por nós.
Rainha dos Mártires, rogai por nós.
Rainha dos confessores da fé, rogai por nós.
Rainha das Virgens, rogai por nós.
Rainha de todos os Santos, rogai por nós.
Rainha concebida sem pecado original, rogai por nós.
Rainha assunta ao céu, rogai por nós.
Rainha do santo Rosário, rogai por nós.
Rainha da família, rogai por nós.
Rainha da paz, rogai por nós.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo,
perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo,
ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo,
tende piedade de nós.

V. Rogai por nós, santa Mãe de Deus.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oremos:
Suplicantes vos rogamos, Senhor Deus, que concedais a vossos servos lograr perpétua saúde do corpo e da alma, e que, pela intercessão da bem-aventurada sempre Virgem Maria, sejamos livres da presente tristeza e gozemos da eterna alegria por Cristo Nosso Senhor. Amém.

Dia 24 – Leitura do Tratado: Parágrafos 152 a 168

ARTIGO V – Esta devoção conduz à união com Nosso Senhor

152. Quinto motivo. Esta devoção é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor, e nisto consiste a perfeição do cristão.

§ I. Esta devoção é um caminho fácil

153. A que atribuir, então – dirá algum fiel servidor desta boa Mãe –, que seus servos tenham de enfrentar tantas ocasiões de sofrer, e mais que os outros que não lhe são devotos? Contradizem-nos, perseguem-nos, caluniam-nos, não os suportam; ou, então, andam em trevas interiores, e em aridez de alma onde não pinga nem uma gota de orvalho celeste. É esta devoção torna mais fácil o caminho que conduz a Jesus Cristo, donde vem que eles são tão desprezados?

154. Respondo-lhes que é bem verdade que os mais fiéis servos da Santíssima Virgem são seus grandes favoritos, recebendo dela as maiores graças e favores do céu, isto é, as cruzes; mas sustento que são também os servidores de Maria que levam estas cruzes com mais facilidade, mérito e glória, que com outro qualquer pararia mil vezes e até cairia, eles não se detêm e, ao contrário, avançam sempre, porque esta boa Mãe, cheia de graça e união do Espírito Santo, adoça todas as cruzes que para eles talha, no mel de sua doçura maternal e na unção do puro amor; deste modo, eles as suportam alegremente, como nozes confeitadas, que, de natureza, são amargas. E creio que uma pessoa que quer ser devota e viver piedosamente em Jesus Cristo, e, por conseguinte, sofrer perseguições e carregar todos os dias sua cruz, não carregará nunca grandes cruzes, ou não as carregará alegremente até o fim, sem uma terna devoção à Santíssima Virgem, que torna doces as cruzes; do mesmo modo que uma pessoa não poderia, sem uma grande violência, impossível de manter indefinidamente, comer nozes verdes que não fossem saturadas de açúcar.

§ II. Esta devoção é um caminho curto

155. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho curto para encontrar Jesus Cristo, seja porque dele não nos extraviamos, seja porque, como acabo de dizer, nele marchamos com mais alegria e facilidade, e, consequentemente, com mais prontidão. Avançamos mais, no pouco tempo de submissão e dependência a Maria, do que em anos inteiros de vontade própria e contando apenas com o próprio esforço; pois o homem obediente e submisso à Maria Santíssima cantará vitórias (Pv 21,28), assinaladas sobre seus inimigos. Estes hão de querer impedi-lo de avançar, ou obrigá-lo a recuar, ou derrubá-lo; mas, apoiado, auxiliado e guiado por Maria, ele, sem cair, sem recuar, sem mesmo se atrasar, avançará a passos de gigante em direção a Jesus Cristo, pelo mesmo caminho, que, como está escrito (Sl 18,6), Jesus trilhou para vir a nós em largos passos e em pouco tempo.

156. Por que viveu Jesus Cristo tão pouco sobre a terra, e por que usou seus poucos anos que aqui viveu passou-os quase todos em submissão e obediência à sua Mãe? Ah! é que, tendo vivido pouco, encheu a carreira de uma longa vida (Sb 4,13); viveu longamente e mais que todos os Adão, do qual veio reparar as perdas, embora este tenha vivido mais de novecentos anos; e Jesus Cristo viveu longamente, porque viveu bem submisso e bem unido a sua Mãe Santíssima, para obedecer a Deus seu Pai; pois:
1º) aquele que honra sua mãe assemelha-se a um homem que entesoura, diz o Espírito Santo, isto é, aquele que honra a Maria, sua Mãe, ao ponto de submeter-se a ela e obedecer-lhe em tudo, em breve se tornará rico, pois acumula tesouros todos os dias, pelo segredo desta pedra filosofal: “Qui honerat matrem, quasi qui thesaurizat” (Eclo 3,5);
2º) porque, conforme uma interpretação espiritual da palavra do Espírito Santo: “Sennectus mea in misericordia uberi”, – Minha velhice se encontra na misericórdia do seio” (Sl 91,11), é no seio de Maria, que “envolveu e gerou um homem perfeito” (cf. Jr 31,22), e que “teve a capacidade de conter aquele que o universo todo não compreende nem contém”, é no seio de Maria que os jovens envelhecem em luz, em santidade, em experiência e em sabedoria, e onde, em poucos anos, se atinge a plenitude da idade de Jesus Cristo.

§ III. Esta devoção é um caminho perfeito

157. Esta prática de devoção à Santíssima Virgem é um caminho perfeito para ir e unir-se a Jesus Cristo, pois Maria é a mais perfeita e a mais santa das criaturas, e Jesus Cristo, que veio perfeitamente a nós, não tomou outro caminho em sua grande e admirável viagem. O Altíssimo, o Inacessível, aquele que é, quis vir a nós, pequenos vermes da terra, que nada somos. Como se fez isto? O Altíssimo desceu perfeita e divinamente até nós por meio da humilde Maria, sem nada perder de sua divindade e santidade; e é por Maria que os pequeninos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo sem recear coisa alguma. O Incompreensível deu-seu-se compreender e conter perfeitamente por Maria, sem nada perder de sua imensidade; é também pela pequenina Maria que devemos deixar-nos conduzir e conter perfeitamente sem a menor reserva. O Inacessível aproximou-se, uniu-se estreitamente, perfeitamente e até pessoalmente à nossa humanidade por meio de Maria, sem perder uma parcela de sua majestade; é também por Maria que devemos aproximar-nos de Deus e unir-nos à sua majestade, perfeita e estreitamente, sem temor de repulsa. Aquele que é quis, enfim, vir ao que não é, e fazer que aquele que não é se torne Deus ou aquele que é. E ele o fez perfeitamente, dando-se e submentendo-se inteiramente à Virgem Maria sem deixar de ser no tempo aquele que é na eternidade; outrossim, é por Maria que, se bem que sejamos nada, podemos tornar-nos semelhantes a Deus, pela graça e pela glória, dando-nos a ela tão perfeita e inteiramente, que nada sejamos em nós mesmos e tudo nela, sem receio de nos enganar.

158. Ainda que me apresentem um caminho novo para ir a Jesus Cristo, e que esse caminho seja pavimentado com todos os merecimentos dos bem-aventurados, ornado de todas as suas virtudes heroicas, iluminado e decorado de todas as luzes e belezas dos anjos, e que todos os anjos aí estejam para conduzir, defender e amparar aqueles e aquelas que o quiserem palmilhar; em verdade, em verdade, digo ousadamente, e digo a verdade, eu havia de preferir a este, tão perfeito, o caminho de Maria: “Possui immaculateam viam meam” (Sl 18,33), viu a minha senda imunda sem a menor nódoa ou mancha, sem pecado original ou atual, sem sombras nem trevas; e quando me avalidar Jesus viver, em sua glória, uma segunda vez a terra (como é certo) para aqui reinar, é por Maria Santíssima, o mesmo pelo qual ele veio com segurança e perfeitamente a primeira vez. A diferença entre a primeira e a última vinda é que a primeira será secreta e oculta, e a segunda será gloriosa e retumbante; ambas, porém, são perfeitas, porque, como a primeira, também a segunda será por Maria. Eis um mistério que não podemos compreender: “Hic taceat omnis lingua”.

§ IV. Esta devoção é um caminho seguro

159. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho seguro para irmos a Jesus Cristo e adquirirmos a perfeição, unindo-nos a ele:

1º) Porque esta prática, preconizada por mim, não é nova; é tão antiga, que não se pode, como diz Boudon, em um livro que escreveu sobre esta devoção, determinar-lhe com toda a precisão os começos. Em todo caso é certo que há mais de 700 anos encontram-se vestígios dela na Igreja.

Santo Odilon, abade de Cluni, que viveu cerca do ano 1040 foi um dos primeiros que a praticaram na França, conforme está anotado em sua vida.

O Cardeal Pedro Damião refere que em 1016 o bem-aventurado Marinho, seu irmão, se fez escravo da Santíssima Virgem, em presença de seu diretor e de um modo bem edificante: pôs a corda ao pescoço, tomou a disciplina, e depositou sobre o altar uma quantia de dinheiro como sinal de seu devotamento e consagração à Santíssima Virgem; e assim continuou tão fielmente, que, na hora da morte, mereceu ser visitado e consolado por sua boa Soberana, de cujos lábios recebeu as promessas do paraíso em recompensa de seus serviços.

Cesário Bollando menciona um ilustre cavaleiro, Vautier de Birbak, parente chegado dos duques de Lovaina, que, aí pelo ano 1300, fez esta consagração à Santíssima Virgem.

Esta devoção foi praticada por muitos particulares até ao século XVII, quando se tornou pública.

160. O Padre Simão de Roias da Ordem da Trindade, também chamada da redenção dos cativos, pregador do Rei Filipe III, pôs em voga esta devoção em toda a Espanha (em 1611) e na Alemanha; a instâncias de Filipe III, obteve de Gregório XV grandes indulgências para aqueles que a praticassem.

O padre de Los Rios, da Ordem de Santo Agostinho, aplicou-se com seu íntimo amigo, o padre de Roias, a espalhar esta devoção por toda a Espanha e Alemanha, o que fez por seus escritos e pregações. Compôs um grosso volume intitulado Hierarquia Mariana, no qual trata, com piedade e erudição, da Antiguidade, da excelência e da solidez desta devoção.

161. Os reverendos padres teatinos estabeleceram esta devoção na Itália, na Sicília e na Saboia, no século XVII.
O Rev. Pe. Estanislau Falácio, da Companhia de Jesus, incrementou maravilhosamente esta devoção na Polônia.
O Rev. Pe. Cornélio à Lápide, recomendável tanto por sua profunda sabedoria quanto por sua piedade, tendo recebido de vários bispos e teólogos a incumbência de dar seu parecer sobre esta devoção, examinou-a acuradamente e teceu-lhe louvores dignos de sua piedade, e seu exemplo foi seguido por muitas outras pessoas importantes.

Os reverendos padres jesuítas, sempre zelosos do serviço da Santíssima Virgem, apresentaram ao Duque Fernando da Baviera, em nome dos congreganistas de Colônia, um pequeno tratado desta devoção. O duque, que era, então, arcebispo de Colônia, deu-lhe sua aprovação e a permissão de imprimi-lo, exortando todos os curas e religiosos de sua diocese de propagar, quanto pudessem, esta sólida devoção.

162. O cardeal de Bérulle, cuja memória é abençoada por toda a França, foi um dos mais zelosos em espalhar esta devoção, apesar de todas as calúnias e perseguições que lhe levantaram e moveram os críticos e os libertinos. Acusaram-no de inventar novidade e superstição; escreveram e publicaram contra esta devoção, mas o grande e santo homem só opôs a suas calúnias uma admirável paciência, e as suas objeções, contidas no tal libelo, um pequeno escrito em que as refuta energicamente, demonstrando que esta devoção é fundada no exemplo de Jesus Cristo, nas obrigações que lhe devemos, e nas promessas do batismo. Diz, enfim, muitas coisas belas que se pode ler em suas obras.

163. No livro de Boudon, já citado (n. 150), encontram-se os nomes de muitos grandes personagens que abraçaram esta devoção, dos teólogos que a examinaram, pode-se ler das perseguições que lhe suscitaram e que venceu, e dos milhares de pessoas que a abraçaram, sem que jamais paja algum a tenha condenado; pelo contrário, souberam fazê-lo sem derrubar os fundamentos do cristianismo.

Fica, portanto, de pé que esta devoção não é nova, e que não é comum, e que é por demais para ser apreciada e praticada por todo o mundo.

164. 2º) Esta devoção é um meio seguro para ir a Jesus Cristo, porque pertence à Santíssima Virgem e lhe é próprio conduzir-nos a Jesus Cristo, como compete a Jesus Cristo conduzir-nos ao Pai celestial. E não creiam erroneamente as pessoas espirituais que Maria seja um empecilho no caminho que conduz à união divina. Pois seria possível que aquela que achou graça diante de Deus para o mundo todo em geral, e para cada um em particular, fosse um empecilho a uma alma que busca a grande graça da união com Ele? Seria possível que aquela que tem sido cheia e superabundante de graças, e tão unida e transformada em Deus, a ponto de Ele encarnar-se nela, impedisse uma alma de ficar perfeitamente unida a Deus?

É verdade que à vista de outras criaturas, ainda que santas, poderia, talvez, em certos tempos, retardar a união divina; mas não Maria, como já disse e direi sempre sem me cansar. Uma das razões por que tão poucas almas atingem a plenitude da idade de Jesus Cristo, é que Maria, a Mãe do Filho e a Esposa do Espírito Santo, não está suficientemente formada nos corações. Quem quiser o fruto bem maduro e formado deve ter a árvore que o produz; quem quer possuir o fruto de vida, Jesus Cristo, deve ter a árvore da vida, que é Maria. Quem quiser ter em si a operação do Espírito Santo, deve ter sua Esposa fiel e inseparável, Maria Santíssima, que o torna fértil e fecundo, como já dissemos alhures (n. 20-21).

165. Persuadi-vos, portanto, de que quanto mais contemplardes Maria em vossas orações, meditações, ações e sofrimentos, se não de um modo distinto e perceptível, ao menos geral e imperceptível, tanto mais perfeitamente encontrareis Jesus Cristo, que, com Maria, é sempre grande, poderoso, ativo e incompreensível, e muito mais que no céu e em qualquer criatura do universo. Assim, Maria Santíssima, toda abismada em Deus, está longe de tornar-se um obstáculo aos perfeitos no seu caminho para chegar à união com Deus, e, bem ao contrário, não houve até hoje, nem haverá nunca criatura que nos auxilie mais eficazmente do que ela nesta grande obra, seja pelas graças que para este efeito vos comunicará, pois ninguém fica cheio do pensa­mento de Deus se não for por ela, diz um santo: “Nemo cogitatione Dei repletur nisi per te”; seja pelas ilusões e trapaças do espírito maligno contra o qual ela vos garantirá.

166. Onde está Maria, não entra o espírito maligno; e um dos sinais mais infalíveis de que se está sendo conduzido pelo bom espírito é a circunstância de ser muito devoto de Maria, de pensar nela muitas vezes, e de falar-lhe frequentemente. É esta a opinião de um santo que acrescenta que, como a respiração é sinal inconfundível de que o corpo não está morto, o pensamento assíduo e a invocação amorosa de Maria é um sinal certo de que a alma não está morta pelo pecado.

167. Maria sozinha esmagou e exterminou as heresias, diz a Igreja com o Espírito Santo que a conduz: “Sola cunctas haereses interemisti in universo mundo”; e embora os críticos resmunguem contra esta afirmação, jamais um fiel devoto de Maria cairá na heresia ou na ilusão, pelo menos formal; poderá errar materialmente, tomar a mentira por verdade, e o espírito maligno pelo bom, e isto mesmo não tão facilmente como outro qualquer. Mais cedo ou mais tarde, porém, reconhecerá sua falta e seu erro material, e, quando o reconhecer, não temerá de modo algum em crer e sustentar o que tomara por verdade.

168. Qualquer pessoa, portanto, sem receio de ilusão comum às pessoas de oração, que quiser avançar no caminho da perfeição e achar segura e perfeitamente Jesus Cristo, abrace de todo o coração, “corde magno et animo volenti” (2Mc 1,3), esta devoção à Santíssima Virgem, que talvez ainda desconheça. Entre neste caminho excelente que não conhecia e que eu lhe mostro (1Cor 12,31). É um caminho trilhado por Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, nosso único chefe. Os fiéis que o trilharam não podem estar enganados.

É um caminho fácil devido à plenitude da graça e da unção do Espírito Santo, de que está cheio: ninguém, que marche neste caminho, se cansa, nem recua. É um caminho curto que em pouco tempo nos leva a Jesus Cristo. É um caminho perfeito, onde não há lama, nem poeira, nem a menor sujeira do pecado. É, enfim, um caminho seguro que, de um modo reto e garantido, sem voltas para a direita ou para a esquerda, nos conduz a Jesus Cristo e à vida eterna. Entremos, portanto, neste caminho, e marchemos dia e noite, até à plenitude da idade de Jesus Cristo (cf. Ef 4,13).

📍 Conclusão

Ao encerrarmos a meditação de hoje, somos convidados a contemplar a beleza e a segurança do caminho que a Santíssima Virgem nos apresenta: um caminho fácil, curto, perfeito e seguro. Não se trata de uma promessa de ausência de cruzes, mas de um caminho mais amável e luminoso, onde Maria — cheia de graça e unida perfeitamente a Deus — nos toma pela mão e nos conduz com ternura até seu Filho.

Os parágrafos de hoje nos ensinam que é impossível que Maria, a cheia de graça, seja obstáculo à união divina. Pelo contrário: onde está Maria, está o Espírito Santo; onde Ela chega, os corações florescem para Deus. Como bem dizia um santo, a presença constante de Maria no pensamento e no coração é sinal de que a alma está viva, livre do pecado e caminhando na luz.

Quantas vezes nos perdemos por seguir atalhos que prometem muito, mas não conduzem à verdadeira santidade. A devoção a Maria, no entanto, é um caminho certo. Quem a seguir com humildade, não tropeçará. Quem nela confiar, será conduzido pela mão à perfeição do amor.

Por isso, deixemo-nos formar por Maria. Entreguemos a Ela nossos medos, a aridez espiritual, os desvios e inseguranças. Que esta devoção se torne nosso norte, nosso apoio, nosso caminho diário rumo à plenitude da idade de Jesus Cristo (cf. Ef 4,13). Sigamos com fé, com o coração firme e os olhos na meta: unir-se perfeitamente a Jesus, pela via segura de Maria.

 Virgem de Guadalupe está ligada à grande conversão dos povos indígenas das Américas após as aparições a Juan Diego em 1531, no monte Tepeyac. A imagem impressa milagrosamente na tilma tornou-se sinal catequético e espiritual, conduzindo milhões ao batismo. Ao longo dos séculos, inúmeros milagres e graças foram atribuídos à sua intercessão, e a conservação inexplicável da tilma reforça sua importância como sinal da ação divina. Fonte Nossa Senhora de Guadalupe, imagem milagrosa da tilma de Juan Diego, 1531, Monte Tepeyac, Cidade do México. Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe.



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